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Edição
Nº139
Janeiro/ Fevereiro de 2001 |
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A história de Sérgio, que não move braços nem pernas, mas já lê e escreve, mostra que a educação pode transpor as mais inacreditáveis barreiras Lídia Maria de Melo
Em 18 de abril deste ano, Sérgio completou 11 anos. As atividades que desenvolve contrariam boa parte das expectativas médicas, psicológicas, fisioterápicas e pedagógicas. Corno se previa, ele não anda. Mas se locomove sozinho. Quando não usa a cadeira de rodas – geralmente empurrada pela mãe –, senta-se no chão e impulsiona o corpo com as nádegas. Também sabe nadar, está alfabetizado, freqüenta uma escola comum (onde participa até das aulas de Educação Física) e, o mais surpreendente, escreve. Como lhe é impossível segurar lápis ou caneta com a mão, usa a boca para escrever. Um caso com evolução tão admirável que foi apresentado no IV Simpósio Santista de Reabilitação, em outubro de 1989, em sua cidade – Santos (SP) –, e no Congresso Brasileiro de Alfabetização, realizado no Centro de Estudos Alvares Penteado, em São Pauto (SP), em setembro de 1990. As conquistas de Sérgio resultaram primeiramente da imensa vontade que ele sempre demonstrou em aprender, contam os pais, Maristela e Sérgio José da Fonseca. O fundamental, porém, foi o acompanhamento especializado que recebeu na Casa da Esperança, um centro de reabilitação físi- ca e mental situado no bairro da Ponta da Praia, em Santos, que atende gratuitamente crianças economicamente carentes. Intuição
leva ao sucesso Embora a limitação de Sérgio seja exclusivamente física, a mãe não conseguiu matriculá-lo, na época, em estabelecimentos comuns. Maristela diz que os diretores dessas escolas "suspeitavam" que o menino tivesse comprometimento mental e apresentasse dificuldade de aprendizagem. No Decroly, onde Eloísa Helena o acompanhou de perto, Sérgio teve aulas de Português, Matemática, Estudos Sociais, Ciências, Educação Artística e recebeu informações inéditas para ele. Por conviver quase sempre no ambiente familiar, aos 9 anos ele desconhecia, por exemplo, as diferenças entre o órgão sexual masculino e o feminino. Submetido aos testes Kaufman e Weschier de inteligência para crianças, Sérgio não apresentou deficiência mental alguma. Então, a psicóloga Márcia Mathias aconselhou que ele estudasse em escola comum. No ano passado, a professora Eloísa Helena Weyler convenceu-o a aceitar a transferência do Decroly. Mas só depois de muito custo: "Antes, ele chorava quando se falava em mudança", lembra Eloísa. Matriculado na EEPG Dona Luíza Macuco, Sérgio está freqüentando uma classe do Ciclo Básico e convive seis horas por dia, de segunda a sexta-feira, com outros 35 alunos, na faixa de 8 anos de idade. Ele não foi direto para a 3ª série. A direção da escola achou necessária uma adaptação, pois no Decroly as turmas eram compostas de apenas cinco crianças. Raciocínio
privilegiado Para a fisiatra (especialista em reabilitação física e mental) Selma Veloso, o ideal seria todas as escolas receberem deficientes. "A integração deve começar cedo. Se as 35 crianças de uma sala de aula conviverem com um deficiente, mais tarde serão 35 adultos que saberão compreender e respeitar os deficientes na vida cotidiana", observa a fisiatra. A médica destaca a necessidade do trabalho multidisciplinar paralelo para a reabilitação. Já Eloísa Helena, Maria de Lourdes e Deise reforçam a idéia de que o incentivo e a participação dos pais é fator importante para o progresso do filho deficiente. "A atitude da mãe de Sérgio é maravilhosa. Como mãe e professora, eu me sinto miudinha diante da coragem dela", admite Maria de Lourdes. Tratamento
diferenciado Após essa etapa é que Deise faz o acompanhamento individual, usando material da linha pedagógica Montessori. O objetivo é prepará-las para freqüentar uma escola especial ou comum, dependendo do caso. Com Sérgio, não houve atividade em grupo, porque ele tinha problemas de comportamento (agressividade e rebeldia) e era preciso encontrar material e método próprios para ele, que já manifestava o desejo de escrever. Conforme sua mãe, quando ele brincava com crianças da família, em casa, tentava escrever numa lousa, com um dos pés e com a mão, mas não conseguia. Como as articulações que Sérgio mais dominava eram as do pescoço e dos maxilares, ele mesmo propôs: "Com a boca, mãe". Maristela transmitiu a vontade do filho à pedagoga. "Sérgio foi um grande desafio", relembra Deise, que pediu orientação a seus ex-professores do curso de Pedagogia do Excepcional, na atual Universidade Lusíada (Unilus). "Nenhum possuía conhecimento de caso semelhante", afirma Deise, que então decidiu seguir sua intuição, unindo teoria e prática adquiridas em sete anos de trabalho. Ela começou por exercitar a coordenação motora de Sérgio, que já conhecia numerais e letras. Primeiro, prendia uma folha de papel sulfite com fita crepe na mesa e passava para o garoto exercícios de colagem. Ele segurava bolas de papel crepom com os lábios, passava cola e as colocava sobre a folha nos lugares indicados. Depois, com um lápis cortado – para ter no máximo 10 centímetros –, Sérgio cobria, ainda em sulfite, letras de imprensa. O espaço entre as linhas era de 4,5 centímetros. Após dois meses, baixou para 3,5 centímetros. Um ano mais tarde, ele chegou ao caderno, cujas folhas virava também com os lábios e a língua, sem molhá-las com saliva ou amassá-las, Na etapa seguinte, foi inserido o caderno pedagógico de linhas verdes. Em 89, quando já cursa- va a 1ª série no Núcleo Psicopedagágico Decroly, Sérgio passou a usar caderno convencional e a escrever em letra cursiva. Suas principais dificuldades eram os números 2, 3 e 8, por causa das formas arredondadas. Para iniciar a alfabetização, a pedagoga utilizou o método fonético e o alfabeto móvel da linha Montessori. Em Matemática, usou material dourado, também montessoriano. Datilografia,
um novo avanço Sérgio prende o lápis ou a caneta com os dentes e consegue conversar enquanto escreve ou pinta. Na escola, ele aprendeu a usar o lápis-borracha, mas também sabe usar a borracha comum. "Ele é perfeccionista e tem sede de saber", conta a pedagoga, que o ensinou a utilizar carimbos, pintar ilustrações e consultar dicionário. Atualmente, o garoto treina datilografia com uma caneta hidrográfíca média, para pressionar as tecias. "Sérgio pediu para escrever à máquina e eu pensei que ele não fosse conseguir", afirma Deise Verkruisen, admitindo que as limitações do aluno, muitas vezes, são impostas pelos próprios professores e pais. Ela acredita que, no futuro, Sérgio possa trabalhar com computadores. A
satisfação em ser útil
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