Inclusão
Edição Nº139
Janeiro/ Fevereiro de 2001
Exclusivo On-line

As conquistas de um menino que "nunca iria aprender"

A história de Sérgio, que não move braços nem pernas, mas já lê e escreve, mostra que a educação pode transpor as mais inacreditáveis barreiras

Lídia Maria de Melo

Roberto Konda
Sérgio, um caso modelo de como superar deficiências

Quando Sérgio José da Fonseca Filho nasceu, em 1980, em Santos (SP), os médicos não deram esperanças a seus pais. Ele jamais poderia desempenhar ações simples como ficar em pé, acenar, coçar qualquer parte do corpo, segurar algum objeto. Escrever, então, seria impossível. Sérgio nasceu com pernas, pés, braços e mãos malformados – joelhos, cotovelos, punhos e tornozelos sem movimento algum. A deficiência, de origem desconhecida e cientificamente denominada artrogripose múltipla congênita, dificultaria seriamente o seu desenvolvimento neuropsicomotor.

Em 18 de abril deste ano, Sérgio completou 11 anos. As atividades que desenvolve contrariam boa parte das expectativas médicas, psicológicas, fisioterápicas e pedagógicas. Corno se previa, ele não anda. Mas se locomove sozinho. Quando não usa a cadeira de rodas – geralmente empurrada pela mãe –, senta-se no chão e impulsiona o corpo com as nádegas. Também sabe nadar, está alfabetizado, freqüenta uma escola comum (onde participa até das aulas de Educação Física) e, o mais surpreendente, escreve. Como lhe é impossível segurar lápis ou caneta com a mão, usa a boca para escrever. Um caso com evolução tão admirável que foi apresentado no IV Simpósio Santista de Reabilitação, em outubro de 1989, em sua cidade – Santos (SP) –, e no Congresso Brasileiro de Alfabetização, realizado no Centro de Estudos Alvares Penteado, em São Pauto (SP), em setembro de 1990.

As conquistas de Sérgio resultaram primeiramente da imensa vontade que ele sempre demonstrou em aprender, contam os pais, Maristela e Sérgio José da Fonseca. O fundamental, porém, foi o acompanhamento especializado que recebeu na Casa da Esperança, um centro de reabilitação físi- ca e mental situado no bairro da Ponta da Praia, em Santos, que atende gratuitamente crianças economicamente carentes.

Intuição leva ao sucesso
Além de passar por sessões de fisioterapia, fonoaudiologia, terapia ocupacional e psicologia, Sérgio vem recebendo atenção individual da pedagoga Deise Verkruisen, que, após pesquisar e experimentar em vão métodos específicos para o caso, seguiu sua intuição e fez adaptações para obter um resultado positivo na coordenação motora e na alfabetização do menino. Sempre, segundo ela, respeitando as características de Sérgio e confiando em sua capacidade intelectual. "Se todos os professores tivessem esse empenho de individualizar o tratamento, teríamos outros resultados tão bons quanto este", comenta a médica fisiatra e diretora clínica da Casa da Esperança, Selma Regina Melo Ferreira Veloso. Os pais têm também um reconhecimento todo especial pelo trabalho da professora Eloísa Helena Rossi Weyler, do Núcleo Psicopedagógico Decroly, escola particular destinada a crianças com deficiência mental e paralisia cerebral, na qual Sérgio cursou a 1ª e a 2ª séries, em 89 e 90.

Embora a limitação de Sérgio seja exclusivamente física, a mãe não conseguiu matriculá-lo, na época, em estabelecimentos comuns. Maristela diz que os diretores dessas escolas "suspeitavam" que o menino tivesse comprometimento mental e apresentasse dificuldade de aprendizagem.

No Decroly, onde Eloísa Helena o acompanhou de perto, Sérgio teve aulas de Português, Matemática, Estudos Sociais, Ciências, Educação Artística e recebeu informações inéditas para ele. Por conviver quase sempre no ambiente familiar, aos 9 anos ele desconhecia, por exemplo, as diferenças entre o órgão sexual masculino e o feminino. Submetido aos testes Kaufman e Weschier de inteligência para crianças, Sérgio não apresentou deficiência mental alguma. Então, a psicóloga Márcia Mathias aconselhou que ele estudasse em escola comum. No ano passado, a professora Eloísa Helena Weyler convenceu-o a aceitar a transferência do Decroly. Mas só depois de muito custo: "Antes, ele chorava quando se falava em mudança", lembra Eloísa. Matriculado na EEPG Dona Luíza Macuco, Sérgio está freqüentando uma classe do Ciclo Básico e convive seis horas por dia, de segunda a sexta-feira, com outros 35 alunos, na faixa de 8 anos de idade. Ele não foi direto para a 3ª série. A direção da escola achou necessária uma adaptação, pois no Decroly as turmas eram compostas de apenas cinco crianças.

Raciocínio privilegiado
"No início fiquei com receio, por que nunca havia tido experiência semelhante em 21 anos de Magistério", revela a professora Maria de Lourdes Sgorlon Chiara, que, na ausência de Sérgio, preparou seus futuros colegas para recebê-lo. "Eles se comportaram normalmente com o novo companheiro. Fiquei surpresa", diz a professora, que ressalta ainda o bom relacionamento de Sérgio com a classe. E ele mesmo confirma: "Gosto de todos". Como sempre termina a lição primeiro, Sérgio faz questão de esperar pelos colegas, para saírem juntos, em fila. "O raciocínio dele também é impressionante. Ele tem condição de acompanhar uma 4ª série", ressalta Maria de Lourdes, acrescentando que o menino desempenha todas as atividades sozinho e só aceita ajuda em último caso. Nas aulas de Educação Física, Sérgio executa quase todos os exercícios, com as devidas adaptações. "Ele só fica fora do futebol", ressalva a professora. Sérgio criou o hábito de, durante o período de aula, só ir ao banheiro na hora do recreio, quando a mãe retorna à escola para auxiliá-lo.

Para a fisiatra (especialista em reabilitação física e mental) Selma Veloso, o ideal seria todas as escolas receberem deficientes. "A integração deve começar cedo. Se as 35 crianças de uma sala de aula conviverem com um deficiente, mais tarde serão 35 adultos que saberão compreender e respeitar os deficientes na vida cotidiana", observa a fisiatra. A médica destaca a necessidade do trabalho multidisciplinar paralelo para a reabilitação. Já Eloísa Helena, Maria de Lourdes e Deise reforçam a idéia de que o incentivo e a participação dos pais é fator importante para o progresso do filho deficiente. "A atitude da mãe de Sérgio é maravilhosa. Como mãe e professora, eu me sinto miudinha diante da coragem dela", admite Maria de Lourdes.

Tratamento diferenciado
Sérgio iniciou o tratamento na Casa da Esperança aos 4 anos de idade. Aos 7, começou a ser atendido individualmente, três vezes por semana, durante meia hora, pela pedagoga Deise Verkruisen, que tinha como função desenvolver suas noções de limite e orientação no espaço. Com as demais crianças, portadoras de síndrome de Down, paralisia cerebral, hidrocefalia, microcefalia, macrocefalia (todos problemas determinantes de deficiência mental e física), o trabalho é primeiramente executado com grupos de seis, sob a orientação de recreacionistas – professores com formação de Magistério.

Após essa etapa é que Deise faz o acompanhamento individual, usando material da linha pedagógica Montessori. O objetivo é prepará-las para freqüentar uma escola especial ou comum, dependendo do caso. Com Sérgio, não houve atividade em grupo, porque ele tinha problemas de comportamento (agressividade e rebeldia) e era preciso encontrar material e método próprios para ele, que já manifestava o desejo de escrever.

Conforme sua mãe, quando ele brincava com crianças da família, em casa, tentava escrever numa lousa, com um dos pés e com a mão, mas não conseguia. Como as articulações que Sérgio mais dominava eram as do pescoço e dos maxilares, ele mesmo propôs: "Com a boca, mãe". Maristela transmitiu a vontade do filho à pedagoga.

"Sérgio foi um grande desafio", relembra Deise, que pediu orientação a seus ex-professores do curso de Pedagogia do Excepcional, na atual Universidade Lusíada (Unilus). "Nenhum possuía conhecimento de caso semelhante", afirma Deise, que então decidiu seguir sua intuição, unindo teoria e prática adquiridas em sete anos de trabalho. Ela começou por exercitar a coordenação motora de Sérgio, que já conhecia numerais e letras. Primeiro, prendia uma folha de papel sulfite com fita crepe na mesa e passava para o garoto exercícios de colagem. Ele segurava bolas de papel crepom com os lábios, passava cola e as colocava sobre a folha nos lugares indicados.

Depois, com um lápis cortado – para ter no máximo 10 centímetros –, Sérgio cobria, ainda em sulfite, letras de imprensa. O espaço entre as linhas era de 4,5 centímetros. Após dois meses, baixou para 3,5 centímetros. Um ano mais tarde, ele chegou ao caderno, cujas folhas virava também com os lábios e a língua, sem molhá-las com saliva ou amassá-las, Na etapa seguinte, foi inserido o caderno pedagógico de linhas verdes. Em 89, quando já cursa- va a 1ª série no Núcleo Psicopedagágico Decroly, Sérgio passou a usar caderno convencional e a escrever em letra cursiva. Suas principais dificuldades eram os números 2, 3 e 8, por causa das formas arredondadas. Para iniciar a alfabetização, a pedagoga utilizou o método fonético e o alfabeto móvel da linha Montessori. Em Matemática, usou material dourado, também montessoriano.

Datilografia, um novo avanço
Durante as sessões, realizadas até hoje, Sérgio senta-se numa cadeira própria para salas de pré-escola e apóia o peito na lateral da mesa, também de pré-escola. Os braços permanecem esticados, rentes ao tronco. A perna esquerda pára no ar, enquanto a outra descansa sobre as pernas da pedagoga, sob a mesa. "Nosso relacionamento depende dessas adaptações", explica Deise.

Sérgio prende o lápis ou a caneta com os dentes e consegue conversar enquanto escreve ou pinta. Na escola, ele aprendeu a usar o lápis-borracha, mas também sabe usar a borracha comum. "Ele é perfeccionista e tem sede de saber", conta a pedagoga, que o ensinou a utilizar carimbos, pintar ilustrações e consultar dicionário. Atualmente, o garoto treina datilografia com uma caneta hidrográfíca média, para pressionar as tecias. "Sérgio pediu para escrever à máquina e eu pensei que ele não fosse conseguir", afirma Deise Verkruisen, admitindo que as limitações do aluno, muitas vezes, são impostas pelos próprios professores e pais. Ela acredita que, no futuro, Sérgio possa trabalhar com computadores.

A satisfação em ser útil
Sobre o comportamento do menino, a pedagoga diz que ele se sente muito mais seguro e autoconfiante em relação ao início do aprendizado, e não tem mais atitudes agressivas ou rebeldes. Sérgio não chega a comentar sua deficiência, mas, de vez em quando, garante que um dia ainda vai andar. Segundo a mãe, no início do ano, o menino ficou sozinho em casa e foi capaz de puxar uma bolsa pela alça, de cima de uma mesa, abrir o zíper, apanhar uma chave e passá-la por baixo da porta, para o pai abri-la, já que a outra cópia estava com a mãe. Tudo feito com a boca. "Quando eu cheguei, ele me contou, com a maior alegria, que havia ajudado o pai a entrar em casa. Ele se sentiu útil", contou Maristela. Os pais não escondem sua satisfação com as conquistas do filho e chamam a atenção de profissionais que trabalham com deficientes, para que não menosprezem o potencial de cada criança. Maristela e Sérgio José também consideram imprescindível que a família evite a segregração: "É preciso ter uma convivência normal com as demais pessoas. Não se pode ter vergonha", alerta o pai. E a mãe completa o pensamento: "Tenho muito orgulho do meu filho".

MAIS DE 30 ANOS DE ASSISTÊNCIA GRATUITA

Inaugurada em 24 de julho de 1957, a Associação Casa da Esperança presta assistência gratuita a 250 crianças. Sua manutenção é garantida por convênios com a Legião Brasileira de Assistência (LBA), a Secretaria de Trabalho e Promoção Social do Estado de São Paulo, o Inamps, contribuições de sócios e recursos gerados por sua oficina ortopédica, que fabrica, por encomenda, palmilhas, bolas, aparelhos e próteses. O trabalho de reabilitação física e mental, que abrange desde recém-nascidos a crianças de até 12 anos, é desenvolvido por uma equipe composta por fisioterapeuta, psicólogo, neurologista, fistatra, fonoaudiólogo, recreacionista, pedagogo, assistente social, terapeuta ocupacional e dentista. A partir dos 12 anos, se a criança não tiver deficiência física ou mental acentuada, poderá fazer cursos de marcenaria ou encadernação, ministrados na oficina da instituição.

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*Reportagem publicada na edição nº51 - setembro de 1991

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